Produção e crítica. A Importância de Jaime Batalha Reis. moreIn Columbano, MNAC-Leya, 2010. |
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Visual Arts, Creative Writing, Contemporary Poetry, Literature, Philosophy and Critical Theory, Gender Studies, Art History, History, Philosophy and Sociology of Human/animal Relations, Art History, and Visual Studies
Produgdo e critica. A Importdncia de Jaime Batalha
Reis.
Margarida Elias
«Este Batalha Reis e um tipo de 80
anos, baixo, forte, todo branco e olho
esperto atraves das lunetas. Cada dia,
acho este homem mais extraordinario -
por dentro e por fora»\
Jaime Batalha Reis (1847-1935)" foi um dos homens mais
cultos e esclarecidos do seu tempo. Amigo de Eca de
Queiros, fez parte da 'Geracao de 70' e foi na sua casa que
inicialmente se reuniu o grupo de intelectuais fundador do
'Cenaculo'. Interessando-se pela arte, principiou a sua
actividade como critico com artigos sobre opera, escritos
para a Cronica dos Teatros de Portugal . Posteriormente
publicou numerosos textos acerca de estetica, artes
plasticas e temas musicais. Patricia Carrilho Ribeiro
1 BRAND AO, Raul -Memorias, 2000, p. 191 [Tomo III].
2 Batalha Reis frequentou o Colegio Alemao e o Instituto Geral de Agricultura de Lisboa, ficando
formado com 19 anos. Seguiu a carreira de diplomata, da qual se reformou em 1921, retirando-se para a
Quinta da Viscondessa, em Torres Vedras. Cf.: MARINHO, Maria Jose - O Essencial sobre Jaime
Batalha Reis, 1996.
3 Idem, p. 16.
1
asseverou que ele foi «um caso mipar no pensamento
estetico portugues do final de oitocentos»4. Contudo,
Batalha Reis, nunca chegou a publicar nenhum trabalho
que reunisse as suas ideias, sendo atraves de dados
dispersos que alcancamos o seu pensamento estetico.
Em 1947, Diogo de Macedo escreveu a proposito da
relacao de amizade entre Columbano e Batalha Reis,
referindo que o artista retratou o critico por quatro vezes,
tres a oleo e uma a lapis. Essas obras estavam, na sua
maioria, na posse da famflia, em Londres, com excepcao
do retrato de 1892, que foi oferecido ao Museu Nacional
de Arte Contemporanea. O primeiro, quica o mais
interessante, era datado de 1887, e apresentava «o sabio
amigo quase de perfil e folheando um livro ilustrado»,
fazendo «recordar o de Zola, pintado por Manet». O
«terceiro apresenta-nos o escritor sentado em cadeira de
altos bracos, mais emagrecido», tendo sido pintado em
19015.
A relacao de amizade entre Columbano e Batalha Reis
deve remontar a juventude do artista, pois o critico era
amigo de Rafael Bordalo Pinheiro, irmao do pintor. No
4 MARINHO, Maria Jose, op. cit. p.. 55.
5 MACEDO, Diogo de - "Batalha Reis e Columbano", Didrio de Noticias, 8/10/1947.
2
entanto, so em 1884 mostrou interesse sobre a obra de
Columbano, nomeadamente quando foi exposto o
Concerto de amadores (1882) no certame da Sociedade
Promotora de Belas-Artes. Sintomaticamente tratava-se de
uma pintura com um tema musical, o que se adequava aos
interesses de Batalha Reis.
Importa referir que, na altura, o Concerto de amadores foi
pouco apreciado pela maioria dos criticos Portugueses.
Zacarias da Aca era da opiniao que era uma pintura sem
luz e sem cor, e nesse aspecto falsa. Columbano era um
talento "transviado", mesmo que lhe fosse reconhecido
algum valor6. Monteiro Ramalho, um dos companheiros
do Grupo do Leao, admitia que o conjunto deste quadro
lhe era estranho, simultaneamente atraente e
incompreensrvel, real e fantastico7.
A obra foi, em contrapartida, muito elogiada por Batalha
Reis. Este era consul em Newcastle (desde 1883), tendo
acabado de visitar exposicoes em Edimburgo e Londres. O
critico comecava por afirmar que «Portugal possue, enfim,
um grande pintor. Esse pintor e Columbano Bordallo
6 ACA, Zacharias da - "Folhetim do Diario da Manha, Bellas Artes, Columbano, O Concerto de
Amadores", Diario da Manha, 17/6/1884, p. 1.
7 RAMALHO, Monteiro - "A ultima exposicao", O Ocidente, 1/9/1884, p. 195.
3
Pinheiro». Era sua opiniao que o Concerto de amadores
era a vida: nele so se ve o que a luz escolhida podia
mostrar, nao o que o pintor sabia existir. Considerava ele
que o «que torna comovedora e poderosa a obra de
Columbano e a revelacao que n'ella se encontra do mundo
phantastico do espirito humano, o mundo intimo e
visionario tirado da realidade». Para Batalha Reis a arte
nao podia ser uma mera copia da natureza, pois a «grande
obra d'arte (...) e a alma humana interpretada pelo artista».
Pensava que Columbano era uma grande individualidade,
que se destacava nao so no meio portugues, mas em toda a
parte8.
A partir daqui, Batalha Reis tornou-se no principal
paladino de Columbano, promovendo a sua pintura alem-
fronteiras, nomeadamente na Gra-Bretanha e em Franca,
pafses onde possufa maiores contactos. Em 1890,
informava o pintor que fizera uma conferencia em
Londres, na South Institute and Ethical Society, onde
elogiava a sua obra9. O texto foi publicado na Revista de
Portugal, de Eca de Queiros, e nele se podia ler que, assim
8 REIS, Jaime Batalha, (B.R.) - "Bellas Artes - Um quadro de Columbano Bordallo Pinheiro", Comercio
de Portugal, 8/7/1884, pp. 1-2.
9 Carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, 6/1/1891, Espolio de Columbano Bordalo
Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado.
4
como a Gra-Bretanha e a Irlanda so haviam possufdo um
unico grande pintor original, que era Turner, Portugal
tinha «enfim (...) um grande pintor caracteristico e
nacional, - Columbano Bordallo Pinheiro»10.
Em 1891, o artista expos no Salon de Paris o retrato de
Rafael Bordalo Pinheiro (1891). Essa presenca daria lugar
a outro artigo de Batalha Reis, em que este reafirmava a
importancia de Columbano na arte portuguesa. Dizia que
ele era «o maior pintor que Portugal tern tido em todos os
tempos e um dos grandes artistas modernos de todos os
paizes». No entanto, explicava que os trabalhos do pintor
eram desconhecidos fora de Portugal, e af mesmo pouco
apreciados. Columbano tinha um processo de pintar e
conceber os assuntos que nao procedia de ninguem. Ele so
era comparavel, em temperamento, com Velasquez e com
os espanhois «mais fortes» em geral. Pintava o que via, o
que a luz lhe revelava, «escravo do claro-escuro
consequente, tirando d'elle a completa vitalidade, a
intensa modelacao das suas figuras, conservando todas as
indeterminacoes de detalhes, de pianos, de tons, que
formam a visao da realidade, com o que n'ella ha, sempre,
10 REIS, Jaime Batalha - "Caracteristicas de Portugal na Europa e na Historia da Humanidade", Revista
de Portugal, 1890, pp. 346-376 (vol. EI).
5
de indecifracao, de enigma e de mysterio». O fantastico na
sua obra era fruto da «profunda comprehensao da
realidade». Por vezes, as figuras eram de um «comico
sinistro e tragico», como as de Shakespeare e Vftor Hugo,
personagens obtidos dos «temas burgueses» e «dramas
grotescos» do final de seculo11.
No ano de 1900, Columbano obteve sucesso na Exposicao
de Paris, alcancando a medalha de ouro e sendo
condecorado com a Legiao de Honra. Desde entao,
comecou a alimentar o desejo de alargar o seu publico
para fora das fronteiras portuguesas. Nesse sentido,
escreveu a Batalha Reis, dizendo que «Muito desejava
poder vender no estrangeiro. Isto por ca nao e terra para as
artes e parece que cada vez esta pior»12.
Em finais de 1901, dizia que fora «convidado, por uma
sociedade de esculptores, pintores e gravadores, que existe
em Londres, a expor alguns dos meus trabalhos. Claro esta
que aceitei (...), e para ahi enviei dois dos meus
quadros»13. Essa exposicao abriu em 1901, nas Galerias de
11 Idem, "A Arte, a cntica e os artistas Portugueses no salao parisiense de 1891", Revista de Portugal,
1892, pp. 142-165( Vol. IV).
12 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 5/11/1901, Espolio de Jaime
Batalha Reis, caixa 76-10, maco 124, Biblioteca Nacional de Portugal.
13 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 30/9/1901 (?) Espolio de Jaime
Batalha Reis, caixa 76-11, maco 124, Biblioteca Nacional de Portugal.
6
Piccadilly e o artista expos La Femme au Gant e Fruits
d'Automne (1899). Batalha Reis publicou um texto n'A
Epoca, onde dava a notfcia da existencia da Sociedade
Internacional de Belas-Artes que organizava exposicoes
nas grandes cidades da Europa. Presidida por Whistler,
esta Sociedade so expunha obras de artistas convidados,
tratando de revelar novas maneiras de pintar. Conforme
Batalha Reis escrevia, os quadros expostos por
Columbano em Paris, Berlim e Dresden, «foram, para os
artistas e criticos em busca de originalidade, uma grande
revelacao: todos sabiam que Portugal tinha artistas; mas
ninguem esperava que Portugal tivesse um artista, - um
creador de estylo, maneira e impressao»14.
Os quadros de Columbano nao foram vendidos, mas
Batalha Reis teve a ideia de aproveitar a oportunidade para
promover o artista na Gra-Bretanha. Logo em seguida ia
abrir a exposicao de Glasgow, «que e hoje considerado um
dos centros artfsticos d'esta Ilha - e para esta vao muitos
dos quadros da Sociedade Internacional». O seu piano era
o seguinte: Columbano expunha em Glasgow e em
seguida expunha outras obras numa loja de arte londrina,
14 REIS, Jaime Batalha - "A Arte Portuguesa em Londres e o Commercio de Portugal", Epoca, 26/5/1902,
p. 2.
chamando a atencao da critica e do publico. Por fim seria
publicado um artigo num jornal londrino, sobre a sua
obra15. Desta forma, as mesmas pinturas foram
apresentadas no Instituto Real de Belas-Artes de Glasgow,
cuja exposicao inaugurou em 1902. Percy Bate, do Royal
Glasgow Institute, agradecia a oportunidade de mostrar
estes trabalhos, dos mais interessantes e atraentes das
recentes exposicoes16. No Glasgow Evening Times lia-se
que a coleccao de trabalhos escolhida para a exibicao do
Royal Glasgow Institute, era composta por algumas
novidades. A arte estrangeira era especialmente forte e
uma das descobertas da exposicao era o portugues
Columbano17.
Contudo, o piano de voltar a expor no Reino Unido seria
abandonado. O alvo da conquista passou a ser o meio
frances, sendo Paris uma cidade onde o pintor ja vivera
como estudante e para cujo Salon continuava a enviar
trabalhos regularmente. Cerca de 1909, Marcel Dieulafoy
e a mulher vieram a Portugal, e Batalha Reis os levou a
15 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 27/10/1901,
Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP.
16 Carta de Percy Bate a Jaime Batalha Reis, Glasgow, 20/5/1902, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa
76-16, maco 124, BNP.
17 B., "The Royal Glasgow Institute", Glasgow Evening Times, 3/7/1902, Espolio de Jaime Batalha Reis,
caixa 76-5, maco 124, BNP.
8
visitar o atelier de Columbano. Nessa altura, Dieulafoy
animou o artista a apresentar em Paris uma parte da sua
obra18.
Marcel Dieulafoy (1844-1920) era um arqueologo e
historiador frances com bastantes contactos no meio
artfstico, sendo sua mulher, Jeanne Magre Dieulafoy
(1851-1916), uma das figuras mais marcantes em Paris, no
imcio do seculo XX. Os dois haviam descoberto as rumas
dos palacios de Dario I e Artaxerxes II, em Susa, levando
para o Louvre preciosos baixos-relevos19. No imcio de
1910, Dieulafoy escreveu a Columbano, dizendo-lhe que
apreciava a originalidade e a forca das suas obras20. Que
podia contar com a sua diligencia e boa vontade para a
realizacao da exposicao individual: «Desejo infinitamente
fazer conhecer e apreciar em Paris um artista com um
merito e um talento como os seus»21.
Em Junho de 1909 Batalha Reis escreveu a Columbano
dizendo que estivera «em Paris, onde me levava, alem de
outros assuntos, o desejo de falar com o Dieulafoy a seu
18 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 22/12/1909,
Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP.
19 The New York Times, 28/5/1916.
20 Carta de Marcel Dieulafoy a Columbano Bordalo Pinheiro, Paris, 17/1/1910, Espolio de Columbano
Bordalo Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado.
21 Carta de Marcel Dieulafoy a Columbano Bordalo Pinheiro, Paris, 10/2/1910, Espolio de Columbano
Bordalo Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado.
9
respeito e d'uma Exposicao da sua obra» . Batalha Reis
decidiu aconselhar Columbano no «momento decisivo»,
em que ele se propunha «solicitar (...) o julgamento do
mundo civilizado». As suas preocupacoes debrucavam-se
maioritariamente sobre o problema da luz, pois afirmava:
«A luz e tudo: nao o esquecamos». Nesse sentido, julgava
que era necessario que o pintor observasse «as Formas e as
cores sob o maior numero possfvel de generos de
iluminacao». Ora, o pintor utilizava sobretudo a luz de
atelier, o que, na opiniao do critico, resultava em
monotonia, falsidade na iluminacao das cenas passadas ao
ar livre e alguma carencia de atmosfera rodeando as
formas. Considerava que o artista deveria pintar ao ar
livre, onde a atmosfera lummica poderia ser observada no
seu maximo23.
Por sua vez, Columbano, que estava entusiasmado com a
ideia de expor em Paris, dizia que precisava de «procurar
todos os meios de tirar, ou desvanecer, a monotonia dos
(...) quadros vistos em conjunto». Porem, declinava o
convite para pintar ao ar livre: «Nunca pintei ao ar livre,
22 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 18/6/1909,
Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP.
23 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, 1/9/1909, Espolio de
Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, Maco 124, BNP.
10
porque nunca me apeteceu, e olhe que estive em Paris no
periodo mais aceso desse genero de pintura, quando o
Bastien Lapage se impunha em todo o seu valor. Um dia
vou tentar alguma coisa nesse sentido apesar de ja nao
estar em idade de seguir um rumo diverso das minhas
predileccoes, pois nunca me encontro a luz do ar livre.
Com respeito a variar os modelos dos retratos, tenho
forcosamente de o fazer. N'este pouco tempo de que
disponho ate ao prazo da Exposicao farei o maior numero
que puder de retratos de raparigas bonitas que possam
alegrar com a sua vivacidade e a sua cor essa exposicao de
quadros negros»24.
Entretanto, Batalha Reis voltou a Paris, para tratar da
exposicao de Columbano. A ideia inicial era fazer uma
exposicao individual na capital francesa, mas depois,
perante as dificuldades que comecaram a surgir, ele e
Dieulafoy decidiram que o sistema mais conveniente era
primeiro fazer admitir alguns quadros na Exposicao da
Societe des Beaux-Arts, sendo apadrinhado por Alfred
Philipe Roll (1846-1919), presidente da Sociedade, e por
Albert Besnard (1849-1934), que tinha grande influencia
24 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 18/9/1909, Espolio de Jaime
Batalha Reis, caixa 76-10, Maco 124, BNP.
11
na Sociedade e cuja mulher era amiga de Jeanne
Dieulafoy. Seria Marcel Dieulafoy, quern, por sua vez, se
encarregava de fazer «que todos os importantes criticos de
arte» falassem de Columbano e dos seus quadros25.
No meio desta mudanca de pianos, o proprio Columbano
pensava que «nao tinha obra bastante para fazer uma
exposicao que enchesse uma grande sala, e pudesse
interessar um publico avido de coisas novas e exigente ate
ao extremo». Principiou a pintar retratos de senhoras «que
me parece darao uma nota differente e alegre, entre os
meus trabalhos. Comecei um retrato da Senhora do
OA
Lino» (1910) - mulher do arquitecto Raul Lino (1879-
1971) -, ideia que teve o aplauso de Batalha Reis,
prognosticando que esse quadro seria «uma maravilha de
colorido, de sumptuosidade», esperando que o fizesse «de
tamanho natural e de corpo inteiro, n'um quarto com
espaco e muita atmosfera»27, isto e, aproximando-se do
gosto do retrato mundano, que tinha grande popularidade
na epoca. Batalha Reis ainda projectava promover a obra
25 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 22/12/1909,
Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP.
26 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 12/1/1910, Espolio de Jaime
Batalha Reis, caixa 76-10, maco 124, BNP.
27 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis dirigida a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres,
18/1/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, Maco 124, BNP.
12
de Columbano em Inglaterra, mas tal nao viria a
28
acontecer .
Entretanto, o entusiasmo do artista ficaria atenuado com
outra carta de Batalha Reis, onde este dizia que o pintor
tinha de enviar oito fotografias de quadros, dos quais Roll,
Besnard e o juri escolheriam quatro29. O pintor arrependia-
se de nao deixar tudo para a exposicao individual que
planeava realizar: «Receio que os quatro quadros, agora
expostos, se afundem, por completo, no meio d'essa
multidao colossal de obras». Alem disso, protestava contra
o facto de ainda ter de sujeitar as suas obras a um juri30. A
resposta de Jaime Batalha Reis31 seria de forma a sossegar
o artista. Dizia-lhe que a Societe Nationale era menos
oficial e mais moderna, criadora e revolucionaria que a
outra sociedade. Os criticos eram conhecidos e amigos de
Dieulafoy e os quadros iriam ser escolhidos por exame de
fotografias32.
Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis dirigida a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres,
27/1/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, Maco 124, BNP.
29 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 27/1/1910,
Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP.
30 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, 11/2/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis,
Caixa 36, Doc. 62, BNP.
31 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis a Columbano, 17/2/1910, Espolio de Jaime
Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 62, BNP.
32 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis a Columbano, 27/5/1910, Espolio de Jaime
Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 62, BNP.
13
A hesitacao de Columbano, a respeito da forma como
deveria expor em Paris, tera sido suscitada por uma visita
ao atelier de Madame Mendes, mulher do escritor frances
Catulle Mendes (1841-1909). De acordo com um artigo
publicado em 1910 n'O Imparcial, esta senhora falara
acerca da importancia de Columbano expor em Paris e,
estando presente Jose de Figueiredo, este referiu que ja se
pensara na Galeria de Georges Petit. O pintor ainda referiu
que so tinha um limitado numero de telas para expor;
Madame Mendes dissera que apenas umas trinta bastariam
para uma exposicao e que a sua arte deveria ser admirada
por todos33.
Todavia, apesar das hesitacoes, o piano seguiu como
previsto. Na Primavera de 1910, Columbano expos em
Paris no Grand Palais dos Champs-Elysees34 e foi
elogiado pela critica. Apresentou nessa data o retrato de
Frederico Ribeiro (1910) e uma natureza morta com
frutos. Visitando a exposicao, Batalha Reis comunicou ao
artista que os quadros estavam colocados nas primeiras
33 O Imparcial, 20/1/1910, p.2.
34 Carta escrita por Columbano a Emilia da Costa, Paris, 3/7/1910, Espolio de Columbano Bordalo
Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado.
14
salas «sous la cimaise» . No Figaro dizia-se que as suas
obras eram magistrais, manifestacoes muito pessoais de
um magnffico temperamento de artista . Satisfeito, o
pintor proferia que era a Dieulafoy que se devia a «boa
colocacao» dos quadros e o «magnffico artigo do
Figaro»37.
Por outro lado, com a intencao de promover as obras,
voltou a capital francesa. Segundo as suas palavras: «Ate
que enfim tornei ainda a ver esta linda terra (...). Tenho
ido aos Salons que teem obras admiraveis. Tive enorme
prazer em voltar a ver o Louvre (...)»38. Nesta visita, o
casal Dieulafoy ofereceu-lhe um jantar, para o qual foram
convidados os «grandes mestres franceses», tendo sido
Columbano a escolher os convidados. «A esse jantar
assistiram o Albert Besnard, o Roll, o Lhermitte [Leon
Augustin L'hermitte (1844-1925)], o Ferrier [Gabriel
Ferrier (1872-1914)] e Callais [provavelmente Horace de
Callais (1847-1921)] (...)»39. No entanto, contrariando o
Carta de Jaime Batalha Reis dirigida a Columbano Bordalo Pinheiro, Paris, 27/5/1910, Espolio de
Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC-Museu do Chiado.
36 he Figaro, 20/4/1910.
37 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 1/6/1910, Espolio de Jaime
Batalha Reis, maco 63, BNP.
38 Postal de Columbano, 30/6/1910, Espolio da Famflia Lopes de Mendonca, BNP.
39 Carta escrita por Columbano a Jaime Batalha Reis, Paris, 9/7/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis,
Caixa 36, Doc. 64, BNP.
15
orgulho de Columbano, hoje sabemos que todos eles eram
artistas ligados ao realismo e naturalismo, em vertentes
mais ou menos academicas, hoje praticamente esquecidos.
Partilhando o contentamento do artista, Jaime Batalha Reis
revelava que fora ele o principal impulsionador da ideia de
Paris: «Eu bem sabia o que lhe preparava quando, depois
de explicar aos Dieulafoy quern v. era, os levei ao seu
atelier em Lisboa, e quando ultimamente lutei, por meio
de longas cartas, com o seu desanimo, e instei para que
mandasse quadros e para que viesse a Paris»40. E
Columbano respondia: «E ao meu amigo que eu devo
tudo, com certeza, e a mais ninguem! (...). Da sua
apresentacao aos Dieulafoy, e que me abriu para este
caminho que eu nao devo deixar perder»41.
No ano de 1911, o pintor voltou a expor no Salon de Paris,
apresentando os retratos de Alda Lino (1910) e de Bulhdo
Pato (1908). Em 1912, figurou com o retrato do actor
Augusto Rosa (1911). Na imprensa francesa comentava-se
a participacao do artista, que ja era considerado como uma
40 Carta de Jaime Batalha Reis para Columbano, Londres, 16/7/1910, Espolio de Columbano Bordalo
Pinheiro MNAC-Museu do Chiado
41 Carta escrita por Columbano a Jaime Batalha Reis, Paris, 20/7/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis,
Caixa 36, Doc. 64, BNP.
16
celebridade por Guillaume Apollinaire . No ano seguinte,
expos novamente na Societe Nationale des Beaux-Arts
onde apresentou o retrato de "Mme. B. de M.". Batalha
Reis comunicava-lhe que tinha ouvido coisas muito
lisonjeiras sobre a sua exposicao desse ano43.
Foi em 1913 que o pintor realizou a exposicao individual
em Paris, tal como vinha ambicionando de longa data. De
acordo com o que desejara desde o imcio do projecto, o
evento decorreu na Galeria de Georges Petit44. Desde
1880, que este galerista comecara a vender trabalhos dos
pintores impressionistas, tornando-se num dos mais
importantes donos de galerias, a par de Durand-Ruel. A
exposicao de Columbano abriu no dia 10 de Junho, dia de
Camoes.
Emile Bertaux foi um dos criticos que se debrucaram
sobre o evento. Escreveu que o pintor «voltava agora a
cidade que o tinha acolhido na juventude, para alcancar a
consagracao do talento, que a elite portuguesa ja celebrava
numa so voz». Na sua opiniao as telas formavam um
42 Cf. Apollinaire, L'Intransigeant, 18/4/1912, recorte do Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro,
MNAC-Museu do Chiado.
43 Carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Renault, 25/4/1913, Espolio de
Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC-Museu do Chiado.
44 Carta escrita por Columbano a Jaime Batalha Reis, Paris, 9/7/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis,
Caixa 36, Doc. 64, BNP.
17
conjunto cuja «severidade exigia respeito». Quando
Columbano estivera em Paris, tinha-se mantido «estranho
aos cenaculos onde se acabava de elaborar a tecnica
impressionista» e foi no Louvre que ele procurara os seus
mestres. Pensava que era em vao que se procuravam
paralelos exactos entre a pintura de Columbano e a
restante arte europeia, pois so ao pintor portugues podia
pertencer uma tristeza que se estendia como um veu
imaterial sobre os retratos: era a «saudade», que ja deixara
o seu traco como um «caracter secular e nacional» nos
retratos de Nuno Goncalves, cuja obra fora descoberta ha
pouco tempo, quando Columbano ja tinha «constitufdo a
sua personalidade e estabelecido o seu nome»45.
Apesar de algumas criticas favoraveis, a exposicao nao
teve tanto impacto como era pretendido. As relacoes entre
o artista e Batalha Reis sofreram algum distanciamento,
provavelmente motivado por questoes vivenciais. O
diplomata foi transferido para Sao Petersburgo (1912) e o
artista tornou-se director do Museu Nacional de Arte
Contemporanea (1914). Por fim, o deflagrar da Primeira
Grande Guerra tambem iria contribuir para afastar a ideia
Bulletin d'ArtAncien & Moderne, 28/6/1913.
18
de fazer carreira em Franca. Em 1917, o pintor ainda
conseguiu que o Museu do Luxembourg lhe adquirisse
uma pintura, desta vez tendo o apoio de Joao Chagas
(1853-1925), que era representante de Portugal em Paris.
Esporadicamente, os nomes de Columbano e Batalha Reis
voltaram a cruzar-se. Em 1921, quando o Concerto de
amadores foi vendido no leilao da coleccao do Conde do
Ameal, o Didrio de Noticias publicou um relevante
artigo46, mencionando que para Batalha Reis este quadro
marcava «a forma definitiva do mestre prodigioso», tendo
causado uma revolucao em Lisboa quando fora exposto,
em 1884. Realcava-se que fora aquele critico quern
primeiro o tinha defendido perante o publico: o seu «artigo
foi o primeiro acto violento duma longa campanha,
durante a qual Columbano Bordalo Pinheiro passou, na
opiniao publica, de excentrico comico e grotesco, a
autoridade, a mestre, - que todos hoje respeitam»47.
Ja reformado, em 1922, Batalha Reis escreveu a
Columbano dizendo-lhe que esperava «ainda, (...)
completar um trabalho, ha muito comecado, sobre as
46 Didrio de Noticias, 12/7/1921, p. 1.
47 "Columbano, a aquisicao do quadro "Soiree chez lui"", artigo datado de 9/11/1930, Espolio de Jaime
Batalha Reis, Doc. 5, Caixa 76, BNP.
19
diferentes fases e maneiras de toda a sua obra ate hoje,
mostrando o que se pintava, e como se pintava, em
Portugal, quando apareceu o Retrato de Mariano Pina, o
Concerto de amadores, etc.»48. Mais tarde, diria que
pensara em fazer uma colectanea sobre o que escreveu
acerca de Columbano, da qual desistiu por ter dificuldade
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em resumir os artigos .
Columbano faleceu em 1929 e em 1930 foi decidido fazer-
lhe um monumento. Fizeram-se subscricoes nos jornais,
de forma a angariar fundos para a realizacao desta obra.
Foi criada uma comissao, cuja honra da presidencia foi
oferecida a Jaime Batalha Reis50. Este sugeriu o nome de
Teixeira Lopes para autor da escultura51, ideia que se
adequava ao seu gosto e, por certo, ao do proprio
Columbano.
Com o tempo, Batalha Reis, sentindo-se doente, foi-se
afastando do projecto. Manuel Emfdio da Silva escreveu-
lhe, dizendo: «Bem fez o Amigo separando-se da
Carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, 8/8/1922, Espolio de Columbano Bordalo
Pinheiro, MNAC-Museu do Chiado.
49 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis a Luis Reis Santos, 29/4/1930, Espolio de Jaime
Batalha Reis, Caixa 76, Doc. 27, BNP.
50 Telegrama dos Alunos de Belas-Artes dirigido a Jaime Batalha Reis, 9/3/1930, Espolio de Jaime
Batalha Reis, Caixa 76, Doc. 23, BNP.
51 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis, 23/10/1930, Espolio de Jaime Batalha Reis,
Caixa 76, Doc. 31, Maco 128, BNP.
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Comissao». Acrescentava que tomara «a iniciativa, a qual
se juntaram alguns amigos meus e do Columbano, para
que seja colocada na casa em que ele faleceu, uma lapide
Comemorativa. Desenhou-a o Raul Lino». Segundo
Emfdio da Silva, a Comissao angariara dez contos, o que
considerava ser «um falhanco e um motivo de regozijo
para os adversaries de Columbano»52.
Vivendo na Quinta da Viscondessa, em Torres Vedras,
com duas filhas solteiras, Batalha Reis ainda tinha o piano
de escrever uma «filosofia», onde iria congregar os seus
pensamentos. Porem, nunca concluiu essa obra, que Viana
da Mota, dizia que seria a sua "Explicacao do Universo"53.
No centenario do seu nascimento, Diogo de Macedo
descreveu-o como um «homem de caracter impoluto e
intemerato que nunca arredou pe donde fosse preciso
gritar pela justica e pela beleza»54.
Os nomes de Batalha Reis e de Columbano ficariam para
sempre ligados. O pintor ficaria a dever a este critico o
facto de ter sido o primeiro que se levantou
verdadeiramente em sua defesa. E, em boa parte, foi
52 Carta de Manuel Emfdio da Silva dirigida a Jaime Batalha Reis, 28/11/1931, Espolio de Jaime Batalha
Reis, Caixa 76, Doc. 36, Maco 124, BNP.
53 Maria Jose Marinho - op. cit., p. 54.
54MACEDO, Diogo de - "Batalha Reis e Columbano", Didrio de Noticias, 8/10/1947.
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gracas a essa defesa que Columbano promoveu o seu
nome dentro e fora de Portugal. Mas a apologia de Batalha
Reis tinha tambem a importancia de ser oriunda de um dos
mais relevantes criticos Portugueses do seculo XIX, cujo
gosto estetico, apesar de conservador, era actualizado,
sobretudo no interesse pelo simbolismo emergente, mas
tambem por ser um gosto construfdo atraves do
conhecimento real daquilo que se fazia por toda a Europa.
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