Produção e crítica. A Importância de Jaime Batalha Reis. more

In Columbano, MNAC-Leya, 2010.

Produgdo e critica. A Importdncia de Jaime Batalha Reis. Margarida Elias «Este Batalha Reis e um tipo de 80 anos, baixo, forte, todo branco e olho esperto atraves das lunetas. Cada dia, acho este homem mais extraordinario - por dentro e por fora»\ Jaime Batalha Reis (1847-1935)" foi um dos homens mais cultos e esclarecidos do seu tempo. Amigo de Eca de Queiros, fez parte da 'Geracao de 70' e foi na sua casa que inicialmente se reuniu o grupo de intelectuais fundador do 'Cenaculo'. Interessando-se pela arte, principiou a sua actividade como critico com artigos sobre opera, escritos para a Cronica dos Teatros de Portugal . Posteriormente publicou numerosos textos acerca de estetica, artes plasticas e temas musicais. Patricia Carrilho Ribeiro 1 BRAND AO, Raul -Memorias, 2000, p. 191 [Tomo III]. 2 Batalha Reis frequentou o Colegio Alemao e o Instituto Geral de Agricultura de Lisboa, ficando formado com 19 anos. Seguiu a carreira de diplomata, da qual se reformou em 1921, retirando-se para a Quinta da Viscondessa, em Torres Vedras. Cf.: MARINHO, Maria Jose - O Essencial sobre Jaime Batalha Reis, 1996. 3 Idem, p. 16. 1 asseverou que ele foi «um caso mipar no pensamento estetico portugues do final de oitocentos»4. Contudo, Batalha Reis, nunca chegou a publicar nenhum trabalho que reunisse as suas ideias, sendo atraves de dados dispersos que alcancamos o seu pensamento estetico. Em 1947, Diogo de Macedo escreveu a proposito da relacao de amizade entre Columbano e Batalha Reis, referindo que o artista retratou o critico por quatro vezes, tres a oleo e uma a lapis. Essas obras estavam, na sua maioria, na posse da famflia, em Londres, com excepcao do retrato de 1892, que foi oferecido ao Museu Nacional de Arte Contemporanea. O primeiro, quica o mais interessante, era datado de 1887, e apresentava «o sabio amigo quase de perfil e folheando um livro ilustrado», fazendo «recordar o de Zola, pintado por Manet». O «terceiro apresenta-nos o escritor sentado em cadeira de altos bracos, mais emagrecido», tendo sido pintado em 19015. A relacao de amizade entre Columbano e Batalha Reis deve remontar a juventude do artista, pois o critico era amigo de Rafael Bordalo Pinheiro, irmao do pintor. No 4 MARINHO, Maria Jose, op. cit. p.. 55. 5 MACEDO, Diogo de - "Batalha Reis e Columbano", Didrio de Noticias, 8/10/1947. 2 entanto, so em 1884 mostrou interesse sobre a obra de Columbano, nomeadamente quando foi exposto o Concerto de amadores (1882) no certame da Sociedade Promotora de Belas-Artes. Sintomaticamente tratava-se de uma pintura com um tema musical, o que se adequava aos interesses de Batalha Reis. Importa referir que, na altura, o Concerto de amadores foi pouco apreciado pela maioria dos criticos Portugueses. Zacarias da Aca era da opiniao que era uma pintura sem luz e sem cor, e nesse aspecto falsa. Columbano era um talento "transviado", mesmo que lhe fosse reconhecido algum valor6. Monteiro Ramalho, um dos companheiros do Grupo do Leao, admitia que o conjunto deste quadro lhe era estranho, simultaneamente atraente e incompreensrvel, real e fantastico7. A obra foi, em contrapartida, muito elogiada por Batalha Reis. Este era consul em Newcastle (desde 1883), tendo acabado de visitar exposicoes em Edimburgo e Londres. O critico comecava por afirmar que «Portugal possue, enfim, um grande pintor. Esse pintor e Columbano Bordallo 6 ACA, Zacharias da - "Folhetim do Diario da Manha, Bellas Artes, Columbano, O Concerto de Amadores", Diario da Manha, 17/6/1884, p. 1. 7 RAMALHO, Monteiro - "A ultima exposicao", O Ocidente, 1/9/1884, p. 195. 3 Pinheiro». Era sua opiniao que o Concerto de amadores era a vida: nele so se ve o que a luz escolhida podia mostrar, nao o que o pintor sabia existir. Considerava ele que o «que torna comovedora e poderosa a obra de Columbano e a revelacao que n'ella se encontra do mundo phantastico do espirito humano, o mundo intimo e visionario tirado da realidade». Para Batalha Reis a arte nao podia ser uma mera copia da natureza, pois a «grande obra d'arte (...) e a alma humana interpretada pelo artista». Pensava que Columbano era uma grande individualidade, que se destacava nao so no meio portugues, mas em toda a parte8. A partir daqui, Batalha Reis tornou-se no principal paladino de Columbano, promovendo a sua pintura alem- fronteiras, nomeadamente na Gra-Bretanha e em Franca, pafses onde possufa maiores contactos. Em 1890, informava o pintor que fizera uma conferencia em Londres, na South Institute and Ethical Society, onde elogiava a sua obra9. O texto foi publicado na Revista de Portugal, de Eca de Queiros, e nele se podia ler que, assim 8 REIS, Jaime Batalha, (B.R.) - "Bellas Artes - Um quadro de Columbano Bordallo Pinheiro", Comercio de Portugal, 8/7/1884, pp. 1-2. 9 Carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, 6/1/1891, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado. 4 como a Gra-Bretanha e a Irlanda so haviam possufdo um unico grande pintor original, que era Turner, Portugal tinha «enfim (...) um grande pintor caracteristico e nacional, - Columbano Bordallo Pinheiro»10. Em 1891, o artista expos no Salon de Paris o retrato de Rafael Bordalo Pinheiro (1891). Essa presenca daria lugar a outro artigo de Batalha Reis, em que este reafirmava a importancia de Columbano na arte portuguesa. Dizia que ele era «o maior pintor que Portugal tern tido em todos os tempos e um dos grandes artistas modernos de todos os paizes». No entanto, explicava que os trabalhos do pintor eram desconhecidos fora de Portugal, e af mesmo pouco apreciados. Columbano tinha um processo de pintar e conceber os assuntos que nao procedia de ninguem. Ele so era comparavel, em temperamento, com Velasquez e com os espanhois «mais fortes» em geral. Pintava o que via, o que a luz lhe revelava, «escravo do claro-escuro consequente, tirando d'elle a completa vitalidade, a intensa modelacao das suas figuras, conservando todas as indeterminacoes de detalhes, de pianos, de tons, que formam a visao da realidade, com o que n'ella ha, sempre, 10 REIS, Jaime Batalha - "Caracteristicas de Portugal na Europa e na Historia da Humanidade", Revista de Portugal, 1890, pp. 346-376 (vol. EI). 5 de indecifracao, de enigma e de mysterio». O fantastico na sua obra era fruto da «profunda comprehensao da realidade». Por vezes, as figuras eram de um «comico sinistro e tragico», como as de Shakespeare e Vftor Hugo, personagens obtidos dos «temas burgueses» e «dramas grotescos» do final de seculo11. No ano de 1900, Columbano obteve sucesso na Exposicao de Paris, alcancando a medalha de ouro e sendo condecorado com a Legiao de Honra. Desde entao, comecou a alimentar o desejo de alargar o seu publico para fora das fronteiras portuguesas. Nesse sentido, escreveu a Batalha Reis, dizendo que «Muito desejava poder vender no estrangeiro. Isto por ca nao e terra para as artes e parece que cada vez esta pior»12. Em finais de 1901, dizia que fora «convidado, por uma sociedade de esculptores, pintores e gravadores, que existe em Londres, a expor alguns dos meus trabalhos. Claro esta que aceitei (...), e para ahi enviei dois dos meus quadros»13. Essa exposicao abriu em 1901, nas Galerias de 11 Idem, "A Arte, a cntica e os artistas Portugueses no salao parisiense de 1891", Revista de Portugal, 1892, pp. 142-165( Vol. IV). 12 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 5/11/1901, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-10, maco 124, Biblioteca Nacional de Portugal. 13 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 30/9/1901 (?) Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-11, maco 124, Biblioteca Nacional de Portugal. 6 Piccadilly e o artista expos La Femme au Gant e Fruits d'Automne (1899). Batalha Reis publicou um texto n'A Epoca, onde dava a notfcia da existencia da Sociedade Internacional de Belas-Artes que organizava exposicoes nas grandes cidades da Europa. Presidida por Whistler, esta Sociedade so expunha obras de artistas convidados, tratando de revelar novas maneiras de pintar. Conforme Batalha Reis escrevia, os quadros expostos por Columbano em Paris, Berlim e Dresden, «foram, para os artistas e criticos em busca de originalidade, uma grande revelacao: todos sabiam que Portugal tinha artistas; mas ninguem esperava que Portugal tivesse um artista, - um creador de estylo, maneira e impressao»14. Os quadros de Columbano nao foram vendidos, mas Batalha Reis teve a ideia de aproveitar a oportunidade para promover o artista na Gra-Bretanha. Logo em seguida ia abrir a exposicao de Glasgow, «que e hoje considerado um dos centros artfsticos d'esta Ilha - e para esta vao muitos dos quadros da Sociedade Internacional». O seu piano era o seguinte: Columbano expunha em Glasgow e em seguida expunha outras obras numa loja de arte londrina, 14 REIS, Jaime Batalha - "A Arte Portuguesa em Londres e o Commercio de Portugal", Epoca, 26/5/1902, p. 2. chamando a atencao da critica e do publico. Por fim seria publicado um artigo num jornal londrino, sobre a sua obra15. Desta forma, as mesmas pinturas foram apresentadas no Instituto Real de Belas-Artes de Glasgow, cuja exposicao inaugurou em 1902. Percy Bate, do Royal Glasgow Institute, agradecia a oportunidade de mostrar estes trabalhos, dos mais interessantes e atraentes das recentes exposicoes16. No Glasgow Evening Times lia-se que a coleccao de trabalhos escolhida para a exibicao do Royal Glasgow Institute, era composta por algumas novidades. A arte estrangeira era especialmente forte e uma das descobertas da exposicao era o portugues Columbano17. Contudo, o piano de voltar a expor no Reino Unido seria abandonado. O alvo da conquista passou a ser o meio frances, sendo Paris uma cidade onde o pintor ja vivera como estudante e para cujo Salon continuava a enviar trabalhos regularmente. Cerca de 1909, Marcel Dieulafoy e a mulher vieram a Portugal, e Batalha Reis os levou a 15 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 27/10/1901, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP. 16 Carta de Percy Bate a Jaime Batalha Reis, Glasgow, 20/5/1902, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-16, maco 124, BNP. 17 B., "The Royal Glasgow Institute", Glasgow Evening Times, 3/7/1902, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-5, maco 124, BNP. 8 visitar o atelier de Columbano. Nessa altura, Dieulafoy animou o artista a apresentar em Paris uma parte da sua obra18. Marcel Dieulafoy (1844-1920) era um arqueologo e historiador frances com bastantes contactos no meio artfstico, sendo sua mulher, Jeanne Magre Dieulafoy (1851-1916), uma das figuras mais marcantes em Paris, no imcio do seculo XX. Os dois haviam descoberto as rumas dos palacios de Dario I e Artaxerxes II, em Susa, levando para o Louvre preciosos baixos-relevos19. No imcio de 1910, Dieulafoy escreveu a Columbano, dizendo-lhe que apreciava a originalidade e a forca das suas obras20. Que podia contar com a sua diligencia e boa vontade para a realizacao da exposicao individual: «Desejo infinitamente fazer conhecer e apreciar em Paris um artista com um merito e um talento como os seus»21. Em Junho de 1909 Batalha Reis escreveu a Columbano dizendo que estivera «em Paris, onde me levava, alem de outros assuntos, o desejo de falar com o Dieulafoy a seu 18 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 22/12/1909, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP. 19 The New York Times, 28/5/1916. 20 Carta de Marcel Dieulafoy a Columbano Bordalo Pinheiro, Paris, 17/1/1910, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado. 21 Carta de Marcel Dieulafoy a Columbano Bordalo Pinheiro, Paris, 10/2/1910, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado. 9 respeito e d'uma Exposicao da sua obra» . Batalha Reis decidiu aconselhar Columbano no «momento decisivo», em que ele se propunha «solicitar (...) o julgamento do mundo civilizado». As suas preocupacoes debrucavam-se maioritariamente sobre o problema da luz, pois afirmava: «A luz e tudo: nao o esquecamos». Nesse sentido, julgava que era necessario que o pintor observasse «as Formas e as cores sob o maior numero possfvel de generos de iluminacao». Ora, o pintor utilizava sobretudo a luz de atelier, o que, na opiniao do critico, resultava em monotonia, falsidade na iluminacao das cenas passadas ao ar livre e alguma carencia de atmosfera rodeando as formas. Considerava que o artista deveria pintar ao ar livre, onde a atmosfera lummica poderia ser observada no seu maximo23. Por sua vez, Columbano, que estava entusiasmado com a ideia de expor em Paris, dizia que precisava de «procurar todos os meios de tirar, ou desvanecer, a monotonia dos (...) quadros vistos em conjunto». Porem, declinava o convite para pintar ao ar livre: «Nunca pintei ao ar livre, 22 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 18/6/1909, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP. 23 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, 1/9/1909, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, Maco 124, BNP. 10 porque nunca me apeteceu, e olhe que estive em Paris no periodo mais aceso desse genero de pintura, quando o Bastien Lapage se impunha em todo o seu valor. Um dia vou tentar alguma coisa nesse sentido apesar de ja nao estar em idade de seguir um rumo diverso das minhas predileccoes, pois nunca me encontro a luz do ar livre. Com respeito a variar os modelos dos retratos, tenho forcosamente de o fazer. N'este pouco tempo de que disponho ate ao prazo da Exposicao farei o maior numero que puder de retratos de raparigas bonitas que possam alegrar com a sua vivacidade e a sua cor essa exposicao de quadros negros»24. Entretanto, Batalha Reis voltou a Paris, para tratar da exposicao de Columbano. A ideia inicial era fazer uma exposicao individual na capital francesa, mas depois, perante as dificuldades que comecaram a surgir, ele e Dieulafoy decidiram que o sistema mais conveniente era primeiro fazer admitir alguns quadros na Exposicao da Societe des Beaux-Arts, sendo apadrinhado por Alfred Philipe Roll (1846-1919), presidente da Sociedade, e por Albert Besnard (1849-1934), que tinha grande influencia 24 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 18/9/1909, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-10, Maco 124, BNP. 11 na Sociedade e cuja mulher era amiga de Jeanne Dieulafoy. Seria Marcel Dieulafoy, quern, por sua vez, se encarregava de fazer «que todos os importantes criticos de arte» falassem de Columbano e dos seus quadros25. No meio desta mudanca de pianos, o proprio Columbano pensava que «nao tinha obra bastante para fazer uma exposicao que enchesse uma grande sala, e pudesse interessar um publico avido de coisas novas e exigente ate ao extremo». Principiou a pintar retratos de senhoras «que me parece darao uma nota differente e alegre, entre os meus trabalhos. Comecei um retrato da Senhora do OA Lino» (1910) - mulher do arquitecto Raul Lino (1879- 1971) -, ideia que teve o aplauso de Batalha Reis, prognosticando que esse quadro seria «uma maravilha de colorido, de sumptuosidade», esperando que o fizesse «de tamanho natural e de corpo inteiro, n'um quarto com espaco e muita atmosfera»27, isto e, aproximando-se do gosto do retrato mundano, que tinha grande popularidade na epoca. Batalha Reis ainda projectava promover a obra 25 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 22/12/1909, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP. 26 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 12/1/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-10, maco 124, BNP. 27 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis dirigida a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 18/1/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, Maco 124, BNP. 12 de Columbano em Inglaterra, mas tal nao viria a 28 acontecer . Entretanto, o entusiasmo do artista ficaria atenuado com outra carta de Batalha Reis, onde este dizia que o pintor tinha de enviar oito fotografias de quadros, dos quais Roll, Besnard e o juri escolheriam quatro29. O pintor arrependia- se de nao deixar tudo para a exposicao individual que planeava realizar: «Receio que os quatro quadros, agora expostos, se afundem, por completo, no meio d'essa multidao colossal de obras». Alem disso, protestava contra o facto de ainda ter de sujeitar as suas obras a um juri30. A resposta de Jaime Batalha Reis31 seria de forma a sossegar o artista. Dizia-lhe que a Societe Nationale era menos oficial e mais moderna, criadora e revolucionaria que a outra sociedade. Os criticos eram conhecidos e amigos de Dieulafoy e os quadros iriam ser escolhidos por exame de fotografias32. Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis dirigida a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 27/1/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, Maco 124, BNP. 29 Rascunho de uma carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Londres, 27/1/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, caixa 76-12, maco 124, BNP. 30 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, 11/2/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 62, BNP. 31 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis a Columbano, 17/2/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 62, BNP. 32 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis a Columbano, 27/5/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 62, BNP. 13 A hesitacao de Columbano, a respeito da forma como deveria expor em Paris, tera sido suscitada por uma visita ao atelier de Madame Mendes, mulher do escritor frances Catulle Mendes (1841-1909). De acordo com um artigo publicado em 1910 n'O Imparcial, esta senhora falara acerca da importancia de Columbano expor em Paris e, estando presente Jose de Figueiredo, este referiu que ja se pensara na Galeria de Georges Petit. O pintor ainda referiu que so tinha um limitado numero de telas para expor; Madame Mendes dissera que apenas umas trinta bastariam para uma exposicao e que a sua arte deveria ser admirada por todos33. Todavia, apesar das hesitacoes, o piano seguiu como previsto. Na Primavera de 1910, Columbano expos em Paris no Grand Palais dos Champs-Elysees34 e foi elogiado pela critica. Apresentou nessa data o retrato de Frederico Ribeiro (1910) e uma natureza morta com frutos. Visitando a exposicao, Batalha Reis comunicou ao artista que os quadros estavam colocados nas primeiras 33 O Imparcial, 20/1/1910, p.2. 34 Carta escrita por Columbano a Emilia da Costa, Paris, 3/7/1910, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC - Museu do Chiado. 14 salas «sous la cimaise» . No Figaro dizia-se que as suas obras eram magistrais, manifestacoes muito pessoais de um magnffico temperamento de artista . Satisfeito, o pintor proferia que era a Dieulafoy que se devia a «boa colocacao» dos quadros e o «magnffico artigo do Figaro»37. Por outro lado, com a intencao de promover as obras, voltou a capital francesa. Segundo as suas palavras: «Ate que enfim tornei ainda a ver esta linda terra (...). Tenho ido aos Salons que teem obras admiraveis. Tive enorme prazer em voltar a ver o Louvre (...)»38. Nesta visita, o casal Dieulafoy ofereceu-lhe um jantar, para o qual foram convidados os «grandes mestres franceses», tendo sido Columbano a escolher os convidados. «A esse jantar assistiram o Albert Besnard, o Roll, o Lhermitte [Leon Augustin L'hermitte (1844-1925)], o Ferrier [Gabriel Ferrier (1872-1914)] e Callais [provavelmente Horace de Callais (1847-1921)] (...)»39. No entanto, contrariando o Carta de Jaime Batalha Reis dirigida a Columbano Bordalo Pinheiro, Paris, 27/5/1910, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC-Museu do Chiado. 36 he Figaro, 20/4/1910. 37 Carta de Columbano Bordalo Pinheiro a Jaime Batalha Reis, Lisboa, 1/6/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, maco 63, BNP. 38 Postal de Columbano, 30/6/1910, Espolio da Famflia Lopes de Mendonca, BNP. 39 Carta escrita por Columbano a Jaime Batalha Reis, Paris, 9/7/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 64, BNP. 15 orgulho de Columbano, hoje sabemos que todos eles eram artistas ligados ao realismo e naturalismo, em vertentes mais ou menos academicas, hoje praticamente esquecidos. Partilhando o contentamento do artista, Jaime Batalha Reis revelava que fora ele o principal impulsionador da ideia de Paris: «Eu bem sabia o que lhe preparava quando, depois de explicar aos Dieulafoy quern v. era, os levei ao seu atelier em Lisboa, e quando ultimamente lutei, por meio de longas cartas, com o seu desanimo, e instei para que mandasse quadros e para que viesse a Paris»40. E Columbano respondia: «E ao meu amigo que eu devo tudo, com certeza, e a mais ninguem! (...). Da sua apresentacao aos Dieulafoy, e que me abriu para este caminho que eu nao devo deixar perder»41. No ano de 1911, o pintor voltou a expor no Salon de Paris, apresentando os retratos de Alda Lino (1910) e de Bulhdo Pato (1908). Em 1912, figurou com o retrato do actor Augusto Rosa (1911). Na imprensa francesa comentava-se a participacao do artista, que ja era considerado como uma 40 Carta de Jaime Batalha Reis para Columbano, Londres, 16/7/1910, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro MNAC-Museu do Chiado 41 Carta escrita por Columbano a Jaime Batalha Reis, Paris, 20/7/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 64, BNP. 16 celebridade por Guillaume Apollinaire . No ano seguinte, expos novamente na Societe Nationale des Beaux-Arts onde apresentou o retrato de "Mme. B. de M.". Batalha Reis comunicava-lhe que tinha ouvido coisas muito lisonjeiras sobre a sua exposicao desse ano43. Foi em 1913 que o pintor realizou a exposicao individual em Paris, tal como vinha ambicionando de longa data. De acordo com o que desejara desde o imcio do projecto, o evento decorreu na Galeria de Georges Petit44. Desde 1880, que este galerista comecara a vender trabalhos dos pintores impressionistas, tornando-se num dos mais importantes donos de galerias, a par de Durand-Ruel. A exposicao de Columbano abriu no dia 10 de Junho, dia de Camoes. Emile Bertaux foi um dos criticos que se debrucaram sobre o evento. Escreveu que o pintor «voltava agora a cidade que o tinha acolhido na juventude, para alcancar a consagracao do talento, que a elite portuguesa ja celebrava numa so voz». Na sua opiniao as telas formavam um 42 Cf. Apollinaire, L'Intransigeant, 18/4/1912, recorte do Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC-Museu do Chiado. 43 Carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, Renault, 25/4/1913, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC-Museu do Chiado. 44 Carta escrita por Columbano a Jaime Batalha Reis, Paris, 9/7/1910, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 36, Doc. 64, BNP. 17 conjunto cuja «severidade exigia respeito». Quando Columbano estivera em Paris, tinha-se mantido «estranho aos cenaculos onde se acabava de elaborar a tecnica impressionista» e foi no Louvre que ele procurara os seus mestres. Pensava que era em vao que se procuravam paralelos exactos entre a pintura de Columbano e a restante arte europeia, pois so ao pintor portugues podia pertencer uma tristeza que se estendia como um veu imaterial sobre os retratos: era a «saudade», que ja deixara o seu traco como um «caracter secular e nacional» nos retratos de Nuno Goncalves, cuja obra fora descoberta ha pouco tempo, quando Columbano ja tinha «constitufdo a sua personalidade e estabelecido o seu nome»45. Apesar de algumas criticas favoraveis, a exposicao nao teve tanto impacto como era pretendido. As relacoes entre o artista e Batalha Reis sofreram algum distanciamento, provavelmente motivado por questoes vivenciais. O diplomata foi transferido para Sao Petersburgo (1912) e o artista tornou-se director do Museu Nacional de Arte Contemporanea (1914). Por fim, o deflagrar da Primeira Grande Guerra tambem iria contribuir para afastar a ideia Bulletin d'ArtAncien & Moderne, 28/6/1913. 18 de fazer carreira em Franca. Em 1917, o pintor ainda conseguiu que o Museu do Luxembourg lhe adquirisse uma pintura, desta vez tendo o apoio de Joao Chagas (1853-1925), que era representante de Portugal em Paris. Esporadicamente, os nomes de Columbano e Batalha Reis voltaram a cruzar-se. Em 1921, quando o Concerto de amadores foi vendido no leilao da coleccao do Conde do Ameal, o Didrio de Noticias publicou um relevante artigo46, mencionando que para Batalha Reis este quadro marcava «a forma definitiva do mestre prodigioso», tendo causado uma revolucao em Lisboa quando fora exposto, em 1884. Realcava-se que fora aquele critico quern primeiro o tinha defendido perante o publico: o seu «artigo foi o primeiro acto violento duma longa campanha, durante a qual Columbano Bordalo Pinheiro passou, na opiniao publica, de excentrico comico e grotesco, a autoridade, a mestre, - que todos hoje respeitam»47. Ja reformado, em 1922, Batalha Reis escreveu a Columbano dizendo-lhe que esperava «ainda, (...) completar um trabalho, ha muito comecado, sobre as 46 Didrio de Noticias, 12/7/1921, p. 1. 47 "Columbano, a aquisicao do quadro "Soiree chez lui"", artigo datado de 9/11/1930, Espolio de Jaime Batalha Reis, Doc. 5, Caixa 76, BNP. 19 diferentes fases e maneiras de toda a sua obra ate hoje, mostrando o que se pintava, e como se pintava, em Portugal, quando apareceu o Retrato de Mariano Pina, o Concerto de amadores, etc.»48. Mais tarde, diria que pensara em fazer uma colectanea sobre o que escreveu acerca de Columbano, da qual desistiu por ter dificuldade 49 em resumir os artigos . Columbano faleceu em 1929 e em 1930 foi decidido fazer- lhe um monumento. Fizeram-se subscricoes nos jornais, de forma a angariar fundos para a realizacao desta obra. Foi criada uma comissao, cuja honra da presidencia foi oferecida a Jaime Batalha Reis50. Este sugeriu o nome de Teixeira Lopes para autor da escultura51, ideia que se adequava ao seu gosto e, por certo, ao do proprio Columbano. Com o tempo, Batalha Reis, sentindo-se doente, foi-se afastando do projecto. Manuel Emfdio da Silva escreveu- lhe, dizendo: «Bem fez o Amigo separando-se da Carta de Jaime Batalha Reis a Columbano Bordalo Pinheiro, 8/8/1922, Espolio de Columbano Bordalo Pinheiro, MNAC-Museu do Chiado. 49 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis a Luis Reis Santos, 29/4/1930, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 76, Doc. 27, BNP. 50 Telegrama dos Alunos de Belas-Artes dirigido a Jaime Batalha Reis, 9/3/1930, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 76, Doc. 23, BNP. 51 Rascunho de uma carta escrita por Jaime Batalha Reis, 23/10/1930, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 76, Doc. 31, Maco 128, BNP. 20 Comissao». Acrescentava que tomara «a iniciativa, a qual se juntaram alguns amigos meus e do Columbano, para que seja colocada na casa em que ele faleceu, uma lapide Comemorativa. Desenhou-a o Raul Lino». Segundo Emfdio da Silva, a Comissao angariara dez contos, o que considerava ser «um falhanco e um motivo de regozijo para os adversaries de Columbano»52. Vivendo na Quinta da Viscondessa, em Torres Vedras, com duas filhas solteiras, Batalha Reis ainda tinha o piano de escrever uma «filosofia», onde iria congregar os seus pensamentos. Porem, nunca concluiu essa obra, que Viana da Mota, dizia que seria a sua "Explicacao do Universo"53. No centenario do seu nascimento, Diogo de Macedo descreveu-o como um «homem de caracter impoluto e intemerato que nunca arredou pe donde fosse preciso gritar pela justica e pela beleza»54. Os nomes de Batalha Reis e de Columbano ficariam para sempre ligados. O pintor ficaria a dever a este critico o facto de ter sido o primeiro que se levantou verdadeiramente em sua defesa. E, em boa parte, foi 52 Carta de Manuel Emfdio da Silva dirigida a Jaime Batalha Reis, 28/11/1931, Espolio de Jaime Batalha Reis, Caixa 76, Doc. 36, Maco 124, BNP. 53 Maria Jose Marinho - op. cit., p. 54. 54MACEDO, Diogo de - "Batalha Reis e Columbano", Didrio de Noticias, 8/10/1947. 21 gracas a essa defesa que Columbano promoveu o seu nome dentro e fora de Portugal. Mas a apologia de Batalha Reis tinha tambem a importancia de ser oriunda de um dos mais relevantes criticos Portugueses do seculo XIX, cujo gosto estetico, apesar de conservador, era actualizado, sobretudo no interesse pelo simbolismo emergente, mas tambem por ser um gosto construfdo atraves do conhecimento real daquilo que se fazia por toda a Europa. 22
x

Log In

or reset password

Reset Password

Enter the email address you signed up with, and we'll send a reset password email to that address

Academia © 2012